quinta-feira, 25 de novembro de 2010

patrimonio imaterial e natural- Odilia Brandão

Se a Morna é consensual como uma potencial obra a figurar na prestigiada lista da UNESCO dos bens orais e imateriais da Humanidade, muitos outros menos conhecidos, mas originais ou raros são apontados por um naipe de figuras cabo-verdianas, como dignos da preservação e susceptíveis de um olhar global que nos pode surpreender: O “choro ou guisa nos funerais”, as “divinas”, a “saga do milho”, o “batuque”, a “ilha ecológica de Santa Luzia”, as “paisagens rurais”, da Ribeira Brava a “viola de dez cordas”, a “festa da bandeira”, a “morabeza”... De Otília Leitão

Estas sugestões surgem a propósito da recente entrada de 47 elementos para esse “património imaterial” da Humanidade, onde, dos países africanos de língua portuguesa apenas figura Moçambique com os seu “Timbila XiChope” e a dança ritual de “Gule Wamkulu”. Para isso instei dez pessoas, de diversas áreas, numa amostragem aleatória, e com o método do “brainstorming” para apontarem realidades cabo-verdianas com idêntico potencial.
Esta organização da ONU aprovou pedaços culturais raros, aspectos que perduram no tempo com uma identidade genuína ou até particularidades que o tempo pode extinguir, em vários países, “coisas que passam de geração para geração” e que tem de ser reconhecidas pelas comunidades.
Os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições, são áreas que podem redundar em aprovações como a “wincuza”, ou a dança do culto da cura no Malawi, o poema épico “Hilali” do Egitpo; “Yaaral e do Degal” ou pastagens do povo peul do delta do Níger, no Mali; o “chili” comida tradicional mexicana, ou ainda a “acumpuntura” na medicina chinesa.
A listagem inclui até ao momento 232 elementos “intangíveis”, de todos os continentes, onde a Ásia, e em particular a China, detém o maior número de obras. As opiniões recolhidas foram comuns quanto ao potencial da “Morna”, mas diversas quanto ao tipo de bens imateriais a preservar. Unânime foi a certeza de que compete ao governo cabo-verdiano, através do seu Ministério da Cultura, “fomentar o processo”, mas, também “à sociedade civil em zelar e pressionar”, para que esses bens sejam recuperados, preservados. Só assim, dizem, é que esses bens exercem a sua função aglutinadora da cultura de um povo, e serem fomentadores de beleza e prazer ao olhar dos seres humanos do planeta.
Moacyr Rodrigues, um investigador, etno-musicólogo, que está a preparar um doutoramento sobre a Morna, é peremptório: “A Morna deve ser património Imaterial da Humanidade”, pela sua universalidade. Celina Pereira, cantora e pedagoga, uma “eugeniana” pela sua preferência pelo compositor Eugénio Tavares, refere ter sugerido por diversas vezes às autoridades do país a candidatura deste género musical cabo-verdiano.
Na opinião do pintor Jorge Cardoso, co-autor do painel de azulejaria da bela gare ferroviária do Rossio, a “morabeza” deve ser também eleita, pois ela é como “expressão de amizade própria” do povo cabo-verdiano, uma espécie de “portal do mundo”, algo imaterial que se concretiza aqui e ali, um pouco por todo o globo.
Titina, cantora, cultora da pureza e tradição da Morna, cuja obra acentua ao preferir as composições de B.Lèza, aponta a “saga do milho”, este como um elemento natural, elementar na cultura cabo-verdiana. Desde o ritual laboral na sua sementeira, descasca e transformação, fomentando as cantigas, a música e a poesia , atravessando a gastronomia do país. Os célebres pastelinhos de milho que variam de ilha para ilha, tomando o nome de “pastelinhos com diabo dentro”, em Santiago, são exemplo da plurifacetagem cultural que este alimento assume num povo.
Para a poetisa Carlota Barros, autora de vários livros, as “Divinas” de S.Nicolau são uma particularidade da cultura cabo-verdiana, um ritual religioso que se podia recuperar. “Elas têm a ver com a espiritualidade de um povo”, e explica: “ Ao fim da tarde vêm as pessoas, descendo a ladeira, para rezar aos santos ou os seus ancestrais para pedir chuva”.
As paisagens rurais são igualmente um património e a poetisa lembra a zona rural da Vila da Ribeira Brava, hoje cidade, “com as casas de arquitectura colonial, que estão a ficar degradadas sem telhas nos terraços. A recuperação à traça original lhe consagrariam um elemento valorativo na paisagem rural cultural, única”.
Madalena Semedo, gestora, fala do “choro" ou “guisa” quando as pessoas morrem e os seus familiares vão chorar os entes queridos. “É um ritual fúnebre que tem um choro próprio, em crioulo, mesmo os funerais que se fazem de cabo-verdianos em Lisboa, tem esse sentimento que se expressa em crioulo”, nota, acrescentando todo o ritual dos violinos cujos sons que saem das cordas são também choros de alma, ao acompanharem o cortejo fúnebre. Às vezes, vão as “choradeiras ou carpideiras”, mulheres que sem pertencerem à família, são contratadas para chorarem. “Os choros também variam de ilha para ilha...”
O “Monte Cara”, essa rocha onde a natureza esculpiu um rosto humano, é também um bem natural a valorizar nessa imaterialidade global diz a gestora, para quem Cabo Verde tem muitas outras coisas dignas da lista das obras mundiais imateriais, pela sua singularidade: no Paúl, a “Passagem”, pela paisagem de vegetação onde cai água natural; a “Tabanca” ou ainda o “pôr do sol”, à determinada hora na Cidade Velha.
Para Adérito Pontes, músico conceituado, obrigatório nos maiores eventos musicais, a Morna “com certeza”, mas “temos também a viola de dez cordas”, instrumento muito antigo e que precisa de ser preservado. A Ilha de Santa Luzia, pela vertente ecológica, humanamente inabitável, mas paraíso de “muitos pássaros e vegetação rasa”, é outra das particularidade do país.
O “Batuco” é, para Rosa Moniz, jornalista e deputada municipal de Sintra, um estilo e ritmo musical que poderia ser património imaterial, pois, considera, “é um elemento de diálogo e de proximidade”, particular de mulheres e exprime-se onde quer que se encontre nas comunidades.
Antónia Pimentel , dirigente associativa, considera que também as “lendas” nas tradições orais, que deviam ser património imaterial e nota que a sociedade civil tem de se mobilizar para desde já, as riquezas imateriais, tal como as materiais, sejam preservadas para o país para riqueza dos povos. O Dragoeiro é também, pelo seu significado, um bem a preservar para a Humanidade.
No olhar do fotógrafo Jorge Martins, autor de várias exposições sobre a cultura de Cabo Verde através da fotografia e do tempo, além da Morna, também o “Funaná”, as festas do “Tambor e Pilão”, a “Festa da Bandeira”, ambas da ilha do Fogo. “Tudo deve ser pesquisado, investigado, e preservado”, opina este autor, que enfatiza: “A sociedade civil deve ter um papel activo e zelador daquilo que é a sua ancestralidade e história”, sob pena de olhar para trás e já nada encontrar por alguma insensibilidade que origina o abandono.
O “homem crioulo”, enquanto ser de uma miscegenização europeia e africana, como o tem sugerido David Hopffer Almada no seu discurso e num livro “em defesa da cabo-verdianidade” , é também uma hipótese , admissível por Jorge Martins, já que a Unesco tem aceitado bens que são comuns a diversos países, como o fez recentemente com a “comida mediterrânica”. Nessa linha, também o “crioulo” enquanto língua falada e comum a outros países, seria susceptível de figurar no elenco das obras mundiais “intangíveis”.
Estas distinções, lembra Jorge Martins, são também para “encorajar os portadores do conhecimento a identificar, revitalizar e a salvaguardar a sua herança”.
As festas de “Colá Son Jon”, a “quebra cabeça”, a “catchupa” foram outros bens apontados por vários inquiridos nesta amostragem. Cada “item” pode ser nomeado para a lista organizacional da UNESCO - criada em 2003, no âmbito da Convenção de 1997 - por um ou mais países, ou nomeado por um país mas apoiado por outros.

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