quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cultura cabo-verdiana: a crioulização e a oficialização do crioulo

Esta reflexão vem na sequência de vários artigos de opinião, fóruns nas redes sociais, etc., que têm debruçado, apaixonadamente, sobre a temática da oficialização ou não da língua cabo-verdiana. Todas as posições veiculadas caem no lugar-comum: o património de todos nós, a língua materna, etc. No entanto esqueceram-se da dimensão holística da cultura cabo-verdiana espelhada na música e na língua cabo-verdiana como elementos de  desenvolvimento cultural e dialogo intercultural. A conquista planetária da música cabo-verdiana, fruto do fenómeno Cesária Évora e dos seus imigrantes, foi  e é objecto de muitos estudos académicos. No plano da lingua, o interesse é enorme, motivo de muitos estudos académicos. A Lingua cabo-verdiana não é muito falada no mundo, a sua implantação geográfica é muito residual. A par da música, a Lingua tende a  criar comunidades imaginada, geradora de diversas emoções. 

A cultura crioula é uma cultura cruzada e errante que penetra vários lugares e sentidos. O crioulo é sem dúvida um legado dos nossos ancestrais da colonização com grande importância no processo da globalização. Falamos crioulo, pensamos em crioulo, vivemos em crioulo com reflexo na polinização de lugares. É a entidade que nos une, constrói e reconstrói os vários lugares do mundo. A experiência local e da diáspora contribuem para alimentar essa visão, ao ver os vários reflexos da crioulização no enriquecimento da etnopaisagem dos vários lugares do mundo. A sua capacidade polinizadora reflecte-se nas discotecas, nas universidades, nos bairros, nas paisagens sonoras, enfim, na experiência transnacional que envolve novos profissionais da contemporaneidade, os Djs, os músicos, os artistas plasticos, dançarinos, jogadores, etc. Por isso, o seu valor patrimonial é sem dúvida muito importante.
A oficialização da língua cabo-verdiana é um processo em consolidação. No entanto é necessário fazer um trabalho que envolva vários campos disciplinares. Não se pode negligenciar o conhecimento comum, o dia-a-dia que alimenta e apimenta a vida, na língua, na labuta diária; esses constituem stock de conhecimento importante para o enriquecimento de uma cultura. É pena, como sempre, que as coisas tenham sido impostas, sem um debate de fundo envolvendo vários agentes da nossa sociedade. Qualquer processo de negociação colectiva tem que ser equacionada os vários argumentos que envolvem contraditórios e posterior consenso.
Apesar de grandes avanços nos meios de transporte, de comunicação e de informação que apertam as distâncias entre as ilhas, ainda não se conseguiu neutralizar os conflitos regionais que matizam a nossa sociedade há vários anos. O argumento culinário do ex-ministro da cultura com vista a posterior uniformização do crioulo, com a mobilidade sócio-espacial da população das ilhas é um falso argumento. As experiências de outras latitudes mostram que esse processo, para além de perigar as especificidades regionais, irá chocar com as resistências de várias ordens: sociais, psicológicos, politicas e naturais. O que se depreende é mais uma postura hegemónica do variante de Santiago sobre as outras ilhas. O entendimento da generalidade da população cabo-verdiana é de que a oficialização põe em perigo as outras variantes das ilhas e regiões do país. Acredito, mesmo que tal intento teria impacto negativo na riqueza das expressões culturais que tem pautada a nossa literatura e outras criações dos homens das ilhas. A riqueza patrimonial da nossa língua tem a ver com a sua diversidade de expressão, dos variantes regionais, com a sua história e peripécias que moldam o espírito criativo dos homens das ilhas.

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