quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Minhas notas de 2009: Que museu para o Campo de Concentração do Tarrafal?

Muito se tem falado e pouco se tem feito para honrar o lugar de memória que é o ex- Campo de Concentração do Tarrafal. Um lugar como todos nós sabemos, sustenta representações negativas, mas que pode adoptar uma imagem positiva se os decisores adoptassem uma postura mais dinâmica e menos autista.
Para este espaço, trouxe uma pequena reflexão do que poderá ser um projecto científico para o Museu de “Resistência” ou de “Liberdade”. Sei que vai haver um Simpósio para obter subsídios para a efectivação do projecto museológico. Uma coisa é certa, o Campo de Concentração do Tarrafal é o património de todos nós. Sem contudo, esquecer as responsabilidades de Portugal, Angola, Guiné-Bissau, etc. Cabo Verde tem o grosso de responsabilidade ao assumir a sua territorialidade como principal factor desse processo. A externalidade positiva desse espaço associado a dinâmica enquanto campo cultural, se for bem estruturada cientificamente, é incontornável.

O Campo prisional do Tarrafal deve seguir a mesma lógica em termos de vocação de outros sítios de memória que se dispersam pelo mundo. Falo dos museus, The Workhouse, Museu de Gulag (único acampamento de trabalho estalinista na Rússia), Museu de Distrito Seis (na África do Sul, reflexo do regime Apartheid), Museu de Guerra da Liberação (Bangladesh), Maison Gives Esclaves (no Senegal), Terezín Brief (na República Checa), etc., enfim, dos vários sítios com uma carga simbólica marcada pela violência. Esses lugares comuns estão ligados através um Web de consciência, ( www.sitesofconscience.org) que dão visibilidade aos programas, conferências, fóruns que debatem os valores da democracia e da liberdade.
A organização transcontinental, União Internacional de Museus dos Sítios Históricos de Consciência visa acima de tudo o respeito pelos valores da humanidade, ao assumir a responsabilidade de se adequar a educação e a cultura como ferramentas fundamentais de entendimento entre as nações. Para isso, a rede desenvolve e tem desenvolvido uma série de programas, tais como interpretação dos lugares históricos, uma politica de tolerância que estimula o diálogo entre os homens, a promoção de valores humanitários e democráticos como funções primárias.
Todos esses valores poderiam ser canalizados para Cabo Verde que tem dado prova de persistência e audácia. A criação de um museu dessa natureza visa contribuir positivamente para a consolidação da democracia quer a nível interno e externo, tendo em conta o papel que Cabo Verde pode desempenhar no contexto africano. O museu afirma-se neste caso, como agente catalisador para a tolerância e a vivência democrática. É um agente eficaz de socialização e um elemento essencial de desenvolvimento da sociedade, pela sua acção no processo de educação permanente dos indivíduos e da sociedade.
O valor cultural, histórico e Patrimonial do ex-Campo de Concentração é incontornável. Para a efectivação de um projecto científico com credibilidade, precisamos de reinventar a nossa maneira de ser. Uma perspectiva de reinvenção cultural que valoriza o património e as pessoas que dele fazem parte.
Artigo publicado no Jornal A Nação em Março de 2009

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