terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Do Campo de Concentração do Tarrafal ao Museu da Resistência: do dissenso ao consenso pós-colonial

O Campo de Concentração do Tarrafal é a prova das contradições humanas. O seu lugar na história contemporânea é sobejamente conhecido, pois, faz parte de inúmeros trabalhos historiográficos. Tratava-se de um espaço de mortificação física e psicológico perpetrado aos opositores do regime fascista do Estado Novo. Se no passado a sua construção, na década de 30 do século XX, pode ser compreendida como elemento de dissenso, actualmente a sua valorização, enquanto património da Comunidade, deverá ser compreendida como factor catalisador de entendimento e de consenso.
É que depois de largos anos de descolonização dos países Africanos da Língua Oficial Portuguesa, as questões fracturantes do colonialismo ainda persistem. Digo mesmo que os consensos ainda estão por consolidar. Os indicadores dessas fracturas estão a vista de todos: o processo negocial da descolonização relacionadas com as questões latifundiárias, heranças familiares, etc., a questão Cabinda, entre outros casos que envolvem os jogos geopolíticos. Também não se pode descurar as situações quotidianas em que o racismo e a xenofobia assumem espaços de inquietações. 
O que se pretende com esta reflexão é de reflectir sobre um ponto de convergência de efeito multiplicador que serve de espelho desse consenso: o Campo de Concentração, actual Museu da Resistência. A reconversão do campo de Concentração do Tarrafal no Museu da Resistência é vista como um contributo para honrar as memórias das vítimas do fascismo. É o “dever da memória” como forma de fazer face ao esquecimento. Apesar dos encontros institucionais dos responsáveis dos países da Comunidade, o Museu da Resistência continua à espera de melhores dias para se tornar num espaço com alguma dignidade. Eis a questão de reflexão: respeitando a sua história e o seu simbolismo no quadro da luta da resistência antifascista, que papel o Museu poderá desempenhar no contexto da lusofonia e da sociedade global? Que ensinamentos o Museu da Resistência veicula? Qual é o lugar do Museu da Resistência no contexto da CPLP e da Lusofonia?
No momento em que tanto se fala do estatuto do cidadão lusófono e outros projectos de estreitamento dos laços da Comunidade é imprescindível identificar espaços em que as pessoas da Comunidade se identificam; um espaço onde as questões invisíveis fossem debatidas de forma horizontal, como por exemplo, as questões do racismo, da xenofobia, da exclusão social e étnica, do multiculturalismo, da morabeza dos cabo-verdianos, da hospitalidade dos portugueses, do leve leve dos santomenses; devem ser debatidas na perspectiva da pedagogia crítica. Uma pedagogia capaz de explorar novos modelos de sociabilidades e que se enquadre na linha do consenso.
O Museu da Resistência é o tal espaço de consenso que se almeja. À laborar no quadro da pedagogia crítica, o Museu será o locus de transformação social, cultural e política, tendo o indivíduo como elemento central, elemento basilar de todas as acções educativas. Para isso, será preciso o desenvolvimento de uma política educativa que postule o conhecimento integral do indivíduo, enquanto sujeito activo do processo de transformação da sociedade. As visibilidades das memórias, da ditadura, das atrocidades, da violência interétnica, e demais memórias que beliscam a Liberdade, constituem elementos enunciadores de novas formas de relacionamento e de produção de conhecimentos sobre a violação dos Direitos Humanos.

No prosseguimento do desiderato da reflexão crítica, o Museu da Resistência representa os movimentos sociopolíticos, como forma de produção sociopolítica da recordação do passado, sustentado no paradigma dos museus reconstrutores. Neste paradigma, os aspectos relacionados com a sociedade em crise, as violações dos Direitos Humanos, o envolvimento comunitário, etc., constituem elementos para a reconstrução das identidades fundadas nas memórias, na reconstituição dos fenómenos, na preservação da memória de forma a problematizar à História e educar para a cidadania. 

É por estas e demais razões que carga simbólica do Campo de Concentração do Tarrafal, actual Museu da Resistência, é incontornável para a efectivação de um projecto transnacional e supranacional. É um acto de reparação de memórias das vítimas, uma homenagem aos mortos e aos que sobreviveram dos períodos do fascismo. O Museu da Resistência enquanto espaço sócio-simbólico e veículo de divulgação das questões da memória precisa de se re-inventar em vários aspectos. Porém não deve servir apenas como lugar de romaria dos grupos escolares e turistas, mas crescer como museu voltado para a educação para a cidadania.
A Comunidade da Língua Oficial Portuguesa representa a “comunidade imaginada” onde estão sedimentados os sentimentos de pertença, as narrativas e este grandioso activo patrimonial que reforçam as identidades dos povos no espaço lusófono. Os sentimentos de pertença, espelhado na língua, na luta comum pela liberdade, constituem um círculo de consenso e de entendimento sobre o passado histórico que ligam esses países. Por isso, a construção ou melhor, a re-invenção do Museu da Resistência representa a identidade multinacional no qual os Estados membros devem-se apoiar, sem receios, porque irá reforçar o espírito da Comunidade.

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