quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mindelo-blues: o momento zero onde tudo começou

Tudo estava programado para o dia D. O sol nessa altura era tolerante, não fazia muito calor, apesar de brilhar com intensidade. Os feixes irradiavam, fazendo foco na baía, cruzando até ao Porto. Os curiosos estavam presentes com ares de expectativas e sonhos. No horizonte os pássaros cruzavam em ritmos de ensaios, circulavam em rodopios na massa de carvão cuspido ao ar.
O mar-blues era o corpo sem curvatura; as ondas eram de picos diminutos, por isso, o barco seguia sem muitos atropelos, assentava como palmas das mãos. Os pássaros continuavam no seu cortejo. O mar sujeitava-se com a mesma paixão, tudo calmo. O marco, o momento zero que revolucionaria a vida de São Vicente estava próximo. Só faltava o carnaval na baía.
Era o momento. Às 16 horas do dia 24 de Janeiro de 1851, quando foi lançada âncora no Porto Grande. O vapor Taviot, de 1120 toneladas, proveniente de Londres, Lisboa, Madeira, Santa Cruz de Tenerife escalara no Porto Grande.
É com o dinamismo portuário é que se constrói as tramas e os ângulos da história de São Vicente. Vimos que os actores vários, socio-locais e transnacionais, protagonizando no palco do teatro do comércio transatlântico trouxeram condimentos socioculturais para o Mindelo; elementos do seu mundo, a mundividência, que vieram reforçar o stock de conhecimento e cultural do povo da ilha. Certos universos culturais tiveram, de certa forma, motivo civilizador, embora de forma espontânea - não imposta.
O colosso portuário era, sem dúvida, o locus de encontro civilizacional, sendo factor propiciador de desenvolvimento da ilha. Cabo Verde entrou na Modernidade através do Porto Grande com a emergência de nova racionalidade, de forma de fazer a cidade, sociabilidade, comercio, etc. São Vicente fazia parte do palco no qual passavam os principais condimentos de abastecimento à Europa: o algodão, o trigo, os minérios e tantas matérias-primas provindas do atlântico sul transitavam pelo Mindelo. Salienta-se, a título de exemplos, alguns dos principais clientes do Porto Grande, a Liverpool, Brazil and River Plate Steamship Company, conhecida em São Vicente como Lamport & Holt. 
O carvão, matéria-prima então em voga foi preponderante para o crescimento para aquele que era tido como porto franco de desenvolvimento. Barcos de várias latitudes aportavam a ilha, com pessoas de credos e costumes diversos que contribuíram para crioulização da cultura local e nacional.
O Porto Grande experimentava azáfama de várias ordens. O ponto zero já começava a contar. O relógio já valia ouro… o tempo era policromático. A vida começava a ser organizada em função das horas…

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