quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Mindelo-blues: a história, o património, as personalidades e a vida cultural



A cidade do Mindelo é a música, as lamentações, o espírito “revolucionário da sua gente”. No amanhecer, com o cantar de galo, os blues-man laboram sem pejo no manto azul do oceano, como estivas, pescadores da vida e das imaginações. É no ritmo frenético do quotidiano que os trovadores exaltados, com a vida, ensaiam uma melodia que espelha a identidade do povo da ilha. Os sons sustentam vários questionamentos aos “outros” do arquipélago: a sua história, a sua gente e a riqueza cultural.
A dicotomia, Mindelo-cidade e Mindelo-ilha representa várias realidades: um ideal-tipo de uma ilha diferente, com atributos diferencial balizada na cultura, na sua gente e no seu património; por outro lado, uma ilha cuja cidade-porto foi e é importante, como elemento potenciador de desenvolvimento de Cabo Verde. Ainda impera na memória colectiva dessa ilha os momentos de prosperidade e de pulsar colectivo impulsionado pelo Porto Grande de Mindelo. Pois, era a placa giratória, um catalisador do comércio, das migrações, da multiculturalidade e das permutas culturais. É por tudo isto que São Vicente é uma ilha que sustenta uma carga simbólica e histórica incontornável no contexto cabo-verdiano.

Ontem, hoje e mais do que nunca, a visão de desenvolvimento da Cidade do Mindelo tem sido descuidada, implementada numa linguagem díspare, isolada das questões do património. Será a crise existencial por parte da tutela que vê no património como peso morto nas questões de desenvolvimento? Falta de conhecimento? Motivação ideológica matizada em algumas iniciativas isoladas? Posso fazer vários questionamentos sobre os tratos que têm sido dado ao património. Só para dizer que a implementação de um discurso de desenvolvimento deve ter em conta o contributo da nossa memória, nunca deve ser em desfavor.

Sabe-se da influência decisiva desta ilha, no século XVIII, XIX e XX, em sectores chaves como: cultura, sociedade, economia e política. Do mesmo modo, são relevantes o contributo do mundo da cultura de Mindelo no reforço de catálogo de práticas culturais em Cabo Verde.  É por esta e por demais razões é que pretendo, embora em tom rasteiro, centrar as reflexões sobre a cultura urbana e os modos de vida na Cidade do Mindelo, com os recortes temporais que vão desde dos primórdios dos séculos XVIII e XIX até ao século XXI. Por razões mais objectivas seria mais lucrativo fixar o recorte temporal num tempo específico. Este intento vai ser para um projecto futuro.
Um cheirinho da história: o povoamento e colonização
A ilha de São Vicente só conheceu a ocupação efectiva nos finais do século XVIII e início do século XX. Uma das razões, se quiser, a força motriz que ditou o interesse e o povoamento, tem a ver com a Revolução Industrial, com a introdução do carvão mineiro. O valor estratégico de Cabo Verde no contexto transatlântico sempre foi visto como elemento estratégico nas incursões sul-sul e norte-sul. A ilha de São Vicente foi a escolhida. Portadora de uma extensa e magnífica baía, a ilha desempenhou um papel importante na corrida imperialista ao servir como palco nas incursões para África do Sul, Sul de Saara e das índias.
Mas o percurso histórico da ilha começou bem antes da Revolução Industrial. A ilha de São Vicente foi descoberta em 1462, foi doada ao Duque de Viseu. Tendo ficado desabitada durante três séculos. A escassez dos recursos e de uma visão estratégica da coroa podem ser algumas das razões do seu abandono. A falta de interesse fez com que durante largos anos a ilha fosse palco de incursões de muitos estrangeiros. Na esteira de alguns estudiosos, durante os meses de Novembro e Dezembro, os mares do Barlavento eram constantemente explorados as baleias pelos americanos (Silva, 2005:24-27); os holandeses e franceses faziam incursões mais ou menos prolongadas na ilha de São Vicente (Correia e Silva, 2005).
No processo de povoamento, a coroa tentou algumas diligências para atrair as pessoas para São Vicente. Com a Carta Régia de Julho de 1795 chegaram a ilha 20 casais e 50 escravos vindos da ilha do Fogo. Mais tardar, dois anos mais tarde, chegariam mais pessoas à ilha do Porto Grande. Neste primeiro momento o capitão-mór, João Carlos da Fonseca Rosado era o responsável pela administração da ilha, fazendo demarcação do território para determinar o perímetro para o povoamento (Almeida, 2009:9).
Como ficou exposto, o povoamento da ilha de São Vicente, tal como o do arquipélago sempre teve momentos de impasse. A insularidade, a pobreza mineral e a escassez da chuva são alguns dos factores que constrangiam o povoamento. Foi com a Revolução Industrial é que a ilha protagonizou momentos de muita prosperidade. Os ingleses instalaram-se na ilha na qual desenvolveu uma intensa actividade comercial e industrial baseada no carvão.
A cidade-porto começou a ganhar pujança com as infra-estruturações, mobilidade das pessoas e fulgor cultural, fruto da multiculturalidade. A cidade respirava ares de mudança e prosperidade, com a criação de empresas de prestação de serviços aos navios que por ali aportavam, a sociedade complexificou-se, com a emergência de novas classes sociais e categorias socioprofissionais. Os poderes económicos e socio-simbólico dos ingleses alimentavam novos estilos de vida, novas práticas, com a emergência de novos espaços culturais. As marcas coloniais estão bem patentes na paisagem urbana da cidade. Os edificios históricos testemunham os contributos dos principais actores de desenvolvimento da ilha: os portugueses, os ingleses e o povo da ilha. A crioulização, digo em segundo grau, trouxe novos condimentos à cultura local e nacional, com reforço significativo nas práticas e representações culturais.

0 comentários:

Enviar um comentário