terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mindelo-blues: ingleses no Mindelo que presença?

Mindelo, Mindelo! A baía do Porto Grande, no seu manto azul respirava a esperança. Já era descartada como sendo mais uma baía de Cabo Verde. Os blues do mar e do céu – em movimentos paralelos -, representavam o devir no mar e no céu, os sonhos que “bem de longi” e os desejos dos povos das ilhas, isolados, sedentos para novos desafios. As insularidades, física e psicológica do povo das ilhas traduzem em novos valores a descobrir. O Mindelo-blues de céu e do mar aclama para novo mundo, nova experiência e nova simbologia. My God! vai começar o  zoom:
A Revolução Industrial, finais do século XVIII e início do século XIX, impulsionada pelo desenvolvimento técnico contribui sobremaneira para a dinamização comercial transatlântico em que a Baia do Porto Grande teve um papel de grande relevo. Por seu turno, a Revolução contribui para a melhoria dos transportes e a exploração desenfreada das matérias-primas. O navio a vapor era a força motriz da comunicação comercial norte-sul, contribuindo assim para o impulsionar da economia mundial.
O Porto Grande de Mindelo foi importante nessa parada comercial que consistia na ligação norte-sul e sul-sul. A consciencialização de que os navios precisavam de um lugar para a manutenção das máquinas e de abastecimento de matérias-primas primava a escolha do Porto Grande, por ser um lugar estratégico, de acesso fácil, e de uma qualidade natural muito vantajosa.
Os ingleses, como senhores da Revolução, viram em São Vicente um lugar estratégico para a implementação do comércio transatlântico. Nos primórdios do século XIX, com a conivência de Portugal, os primeiros hidrógrafos chegaram ao Mindelo para fazer trabalho de prospecção da baía com vista a identificar as potencialidades para a materialização do projecto. Findo o trabalho de prospecção, a Inglaterra teve que esperar cerca de vinte anos para obter a licença para explorar a baía. Uma das primeiras intervenções foi a construção de um depósito de carvão flutuante. Esse depósito teve uma vida curta. Anos mais tarde, nos finais dos anos 30 do século XIX é que começou a desenhar o clima de prosperidade, com as intervenções mais profundas no Porto Grande.
A década de 30 do século XIX, mas concretamente em 1838, fica marcada pela criação das condições institucionais, com a representação diplomática, o cônsul Mr. Jonh Rendall, e a instalação da primeira companhia inglesa carvoeira, a East India. Os ingleses começaram a fixar-se na ilha; assiste-se, igualmente, alguma mobilidade de pessoas das outras ilhas que procuram em São Vicente o “pão nosso de cada dia.”
Um outro marco importante para a ilha de São Vicente tem a ver com o decreto, assinado pelo Marquês de Sá de Bandeira que atribui o nome Mindelo à povoação do Porto grande. É uma forma de homenagear o desembarque do exército liberal de D. Pedro IV nas praias da localidade do Mindelo em Portugal.
A presença da East India no Porto Grande foi curta. No entanto, em 1850 surge uma outra companhia, a Royal Mail Steam Packet, que inicia a instalação de depósito de carvão e de abastecimento dos barcos que faziam o cruzamento sul-sul. Como forma de sustentar as actividades portuária foi construída a alfândega do Porto Grande. A experiencia transatlântica era cada vez mais promissora. Surgiram novas companhias inglesas, casos de Visger &Miller’s, Patent Fuel, Thomas & Miller, MacLoud & Martin, St.Vicent de Cabo Verde, a Wilson & Sons Cª LTD e a Cory Brother (Silva, 2005:103).
A medida que o protagonismo ia subindo, o Porto Grande de Mindelo era cada vez mais o espaço de novas experiências comercial, de contacto de pessoas e bens. Os ilhéus viram no Mindelo um lugar de construção de vida, oportunidades de emprego e de desafios para novos voos. A população ganhou em intensidade e densidade, apropriando espaços nunca dantes experimentados: espaço físico e social. No espaço físico, como acontece em outros pontos do país, surge construções espontâneas, bairros sociais para os trabalhadores; espaço social e simbólico, com a incorporação de novos hábitos e estilos de vida.
Como é costumeira nas outras latitudes, a primeira vaga dos migrantes era essencialmente masculina. A migração feminina surgiu posteriormente, consoante a categoria masculina ia consolidar na posição do mercado laboral. Segundo Correia e Silva “à medida que a cidade-porto vai vingando, a imigração tende a deixar de ser masculina e individual, para se tornar bissexual e familiar” (2005:120). Foram os camponeses das ilhas de Santo Antão e São Nicolau que viram o trabalho no Porto Grande como substituto dos trabalhos nas terras. A amargura da natureza espalhada no mau ano agrícola condiciona qualquer projecto de vida.
A medida que o mercado laboral se torna mais complexas, novas categorias sociais e socioprofissionais surgem como forma de preencher os espaços no mercado. No Porto grande o ar exala novas exigências e complexificações. Surge novas categorias socioprofissionais: os estivadores, mergulhadores, catraeiros trabalhavam nas instalações carvoeiras e no porto. Os trabalhos eram executados rotineiramente, num ritmo que dependia das movimentações no Porto.
Os ingleses mudaram a face física e psicológica da cidade e da sua gente; na urbe, com as construções de inúmeros edifícios, arruamentos e outros equipamentos urbanos. Em termos psicológicos com a incorporação do novo. Os ingleses eram as elites e os autóctones eram os populares. As divisões, de classe e simbólica, eram elementos profundamente marcantes na cidade-porto. Os ingleses tidos como detentores de capitais, económico, simbólico, social e político, vivam no seu mundo, sustentado numa fronteira simbólica que os afastava da classe popular. Algumas construções, criações e recriações testemunham essas demarcações sociais: salões de bailes privados, igreja própria, etc; outras práticas de classe podem-se constatar nas actividades desportivas, tais como, golfe, ténis, cricket, o footing, natação, muitas vezes acompanhadas por nacionais, os cicerones, que desempenhavam papéis de serventes ou ajudantes.
A entrada na fronteira simbólica dos ingleses muitas vezes é acompanhada de aprendizagem da língua e de ethos dos ingleses. A influência inglesa é bem vincada na língua, nos usos e costume do mindelenses. Os tempos passam mas as marcas ficam.
Continua…

2 comentários:

  1. Teresa Helena Duarte25 de julho de 2012 às 18:27

    Magnifico! Obrigada por esta síntese tão bem concebida.Abraço

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  2. Obrigado Teresa Duarte. Estamos juntos. Abraço

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