sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O enigma histórico da Trindade

Uma equipa de técnicos começou, há uma semana, os trabalhos de escavação arqueológica na capela da Trindade, a 13 km da Praia. Remontando ao século XVII, a construção conduziu os especialistas ao enigma de sua origem. Junto à capela,  encontra-se a ruína de uma outra estrutura que também pode ter sido uma igreja no passado. Daí as escavações em torno do túmulo do antigo bispo poderem simbolizar, uma das chaves para compreender melhor o enigma histórico que intriga os pesquisadores. Entretanto, a escassez de recursos bibliográficos mostra-se ainda como um dos grandes obstáculos.



No início do período colonial havia uma distinção entre as duas principais localidades da Ilha de Santiago. Enquanto a Ribeira Grande da Cidade Velha era o ponto mais importante ao sul da ilha, a região de Trindade, ao que tudo indica, pode ter sido uma das principais referências mais ao norte, provavelmente pela boa reserva de água encontrada na região. O que se sabe, todavia, é que ali adormece uma antiga estrutura filipina, simbolizando justo momento histórico em que Portugal e Espanha dividiram sucessivos reinados, precisamente entre 1580 e 1640.   A capela caracteriza-se pelo seu formato octogonal. Como explica o artista plástico português  encarregado de restaurar a pintura do altar da capela, o estilo da estrutura pode ser maneirista, original do século XVII, muito em função de seu formato, da pintura mural que se encontra no altar, e da suposta data de sua construção. A função de Pedro Gago é devolver ao desenho original um aspecto menos deteriorado, preservando ao máximo - como rezam os preceitos principais da restauração -, a autenticidade da obra  sem intervenções rigorosas: “não se pode fazer intervenções muito agressivas em restauração, senão seria o mesmo que falsear”, explica o artista.

Vestígios de 1527
A arqueóloga Ana Maria Lopez Perez explica que os acervos históricos apontam a Fazenda da Trindade como propriedade de um tal Fernão Fiel de Lugo, já no ano de 1527. Livros como a História Geral de Cabo Verde, História Concisa e Subsídios para a História de Cabo Verde são recursos importantes para o desenrolar do trabalho de escavação. Isso, embora todos eles tratem muito de leve o tema, não chegando às raias do aprofundamento deste assunto teórico.
E é aí que está o grande desafio, diz a pesquisadora. Afinal, a escavação é um processo físico e intelectual. “Devemos estar atentos tanto às evidências materiais como imateriais. Para tanto, mesmo a história oral é um importante recurso nesse tipo de trabalho”, clarifica a pesquisadora, lembrando que boa parte do acervo ou está em Portugal ou se perdeu no tempo.    Ela garante que no decurso dos 5 meses de escavação, será necessário recorrer às várias formas de conhecimento existentes. “Sempre, em escavações arqueológicas, espera-se encontrar evidências  históricas; aqui não poderia ser diferente”. Essa pesquisadora, que está acostumada a realizar trabalhos arqueológicos em sítios românicos, na região de Toledo, em Espanha, explica que o trabalho em Trindade no início pareceu simples. Todavia, quando chegou ao sítio e encontrou a outra ruína, com o túmulo do bispo, viu surgir um enigma. De que ano seria a pequena capela já que a outra estrutura em ruínas pode ser a igreja que os antigos documentos fazem menção? 
Ana Lopez não arrisca qualquer suposição, ainda. Mesmo que as escavações sigam o seu curso, muito pouco foi descoberto. Só 3 moedas foram encontradas no processo de limpeza da primeira camada do terreno: duas delas do século XIX, em bom estado de conservação, e uma mais antiga, de data ainda desconhecida. Uma das moedas, curiosamente, traz a face de Luis I, neto do Imperador Dom Pedro I, como explica o artista plástico Pedro Gago.
Outro ponto que traz um grande desafio à equipa diz respeito ao altíssimo processo de erosão da localidade de Trindade. Muito do que for escavado pode voltar a ser recoberto em um curto espaço de tempo: os fortes ventos associados ao terreno dificultam os trabalhos de escavação.



População e património 
Todo esse investimento e pesquisa, diz Jaime Puyoles - Coordenador Geral da Cooperação Espanhola, principal instituição financiadora -, seria inútil caso não houvesse um envolvimento da comunidade local. O grande desafio, lembra, é inserir o cabo-verdiano no processo de identificação do seu próprio património: “Para nós, da Cooperação Espanhola, não faz sentido reabilitar nada que não tenha um uso muito claro por parte da população local”, explica.
Nesse sentido, o financiamento do Governo Espanhol para Cabo Verde está estimado em 199 mil euros – os outros 50 mil euros chegam do Instituto de Preservação do Património Cultural (IIPC) e da ONG Restauradores sem Fronteiras. Dentro do plano de actuação do projecto, está incluída a capacitação técnica da população local em questões relacionadas com a conservação e a importância histórica dos monumentos. Além disso, 14 mulheres e 3 homens da comunidade foram contratados para trabalhar junto à escavação, dando suporte aos técnicos nos afazeres diários.
Enquanto isso, um técnico da ONG espanhola dá aulas aos alunos do Ensino Básico Integrado (EBI) da localidade de Trindade e das imediações. Crianças de 6 a 12 anos são sensibilizadas através de um método pedagógico que busca a interactividade com o meio ao qual pertencem. O arquitecto Dário Perez explica que os miúdos têm aulas baseadas em jogos e actividades recreativas, e, como parte do programa, fazem visitações à capela e mesmo à fábrica de águas Trindade, que fica bem ao lado da antiga estrutura: “É excelente para eles, porque têm a possibilidade de comparar o novo e o antigo, uma estrutura histórica e uma fábrica”, relaciona o espanhol. 

Depois da formação, o estágio
Para além disso, 5 jovens ainda fazem o estágio junto ao grupo de restauradores responsáveis pelas escavações da Capela da Trindade. Eles aprenderam um pouco das técnicas no projecto de restauração da Torre da Misericórdia, na Riberia Grande. Na altura, passaram por um curso sobre Manutenção e Conservação de Sítios Históricos  no Centro de Formação Profissional (CFP). Dos 16 alunos, 5 estão a estagiar nas obras da capela Trindade, enquanto um deles, com condições de financiar uma viagem a Portugal, acabou por ingressar num curso de Conservação e Restauração do Património na cidade do Porto.   Ana Cristina Monteiro Mendes, 20 anos, e Admilson Veiga de Brito, 24, são dois jovens que participaram do curso da Cidade Velha, ambos vivem na Ribeira Grande. Este é o primeiro trabalho deles depois da formação profissional. E mesmo protestando contra a falta de trabalho existente no país, tanto Admilson quanto Ana garantem que gostam muito do ofício. “Meu objectivo é continuar na área da conservação e restauração”, afirma o mais velho dos estagiários. “É muito interessante, justo por estarmos em contacto constante com a história dos nossos antepassados”, completa.   
O projecto tem 12 meses de duração, sendo 5 deles destinados à escavação e 1 mês e meio à restauração da pintura-mural. O restante do projecto foca sensibilização da população local e na inserção dos mesmos dentro da proporção do património histórico que possuem. Para a arqueóloga espanhola, o contacto com a população local é sem sombra de dúvida a parte mais gratificante do trabalho. Afinal, a capela é um monumento de todos os cabo-verdianos. 
Mas, ainda virão mais dois restauradores especialistas. Um deles estará encarregado de restaurar o túmulo em pedra do bispo e outro que vai cuidar da restauração do sítio arqueológico, como rezam os preceitos da ciência da escavação.
F.Chimicatti

0 comentários:

Enviar um comentário