segunda-feira, 6 de junho de 2011

As grandes obras arquitectónicas do centro histórico da cidade da Praia


Maio é o mês que saúda a memória das grandes obras arquitectónicas do Centro Histórico da Cidade da Praia, algumas das quais ainda bem firmes, apesar de erguidas desde o século XIX.
Eis, nas linhas seguintes, uma breve amostra do conteúdo do meu livro intitulado Urbe, Memória e Crítica da Arte, focalizada no Platô-Praia que será lançado esta sexta-feira, 3, na cidade da Praia.
Uma das primeiras realizações de arquitectura monumental expressiva do estatuto de Cidade, obtido em 1858, foi, efectivamente, o edifício da Câmara Municipal.
A imagem acima tem como fonte os arquivos do Museu de Documentos Especiais do IAHN-CV. Exprime a morfologia do Paço do Concelho depois de ser construído. Ao mesmo reporta Senna Barcellos, corroborando dados constantes de documentos manuscritos da época, tal como foi o caso do Relatório das Obras Públicas da Província de Cabo Verde, referente ao segundo Trimestre de 1859. Na altura, já estava na sua fase terminal.
Faltava-lhe apenas alguns rebocos, pinturas, e a collocação da escada principal, bem como pequenas alterações na distribuição do pavimento superior. Foi destinado, em 1860, após a sua conclusão, para albergar a Câmara Municipal e as audiências judiciais.
Trata-se de uma construção com sobriedade perceptível nas superfícies nuas, e nas linhas horizontais ininterruptas, observáveis, na parte térrea bem como no fino friso, que separa os dois níveis rés-do-chão e andar nobre. A faixa que antecede a cornija, transformada depois do restauro numa fina cinta contribui para quebrar a monotonia da fronte principal, na parte superior do edifício. A bela cornija, a platibanda, a gárgula antropomórfica e os acrotérios nos cantos superiores, reforçam o efeito ornamental, deste belo edifício de estilo neoclássico. Na linha da reflexão de Fernando Afonso Baptista (1992), apreciador deste estilo, esta obra arquitectónica acentua a tendência racionalizadora do espaço e enuncia, ao mesmo tempo, a função de cidade, na época em que foi edificada.
Uma outra obra, das mais antigas da urbe tradicional, é aquela cuja fonte é o Fundo 110, Série B3, Caixa PO-1, acessível no Arquivo Histórico Militar em Lisboa e que em 1872 já tinha a fisionomia adiante destacada. Nessa altura, aparece com a designação de Quartel e Batalhão de Caçadores d'Africa Occidental. Depois é apresentado como Quartel da 1ª Companhia de Polícia Civil e Militar. Hoje é conhecido como Companhia Jaime Mota.
Em 1860, altura em que haviam passados mais de trinta anos, após o início da construção do edifício, tal como refere Ilídio do Amaral, foi desenhada pelo Engenheiro Januário Correia de Almeida, a respectiva planta, correspondente à fisionomia que chegou aos nossos dias. O desenho daquele engenheiro, seguramente, terá seguido o velho edifício, espelhando assim o espírito habitual de remodelação de construções, em muitos edifícios públicos da urbe. Apresenta-se no Extremo-Sul do Centro Histórico da Praia como uma edificação de grande imponência, de discreta beleza e equilíbrio de formas, típicos nas obras neoclássicas. A sua entrada monumental foi concebida em arco de asa de cesto, muito usado na arquitectura clássica, exemplarmente demonstrado, por Edward Lucie-Smith (1990), no seu Dicionário de Termos de Arte. 
Trata-se de um edifício com carácter marcadamente nacionalista, corresponde à estética construtiva Neo-Manuelina, lembrando, no século XIX, a tendência da Arquitectura portuguesa de finais de do século XV, mais concretamente, do tempo de D. Manuel I em Portugal. Este estilo não mascara a estrutura do edifício ao mantê-lo livre de ornamentação desnecessária. As paredes exteriores e interiores são nuas e a decoração concentra-se em determinados elementos estruturais. O friso descontínuo da pequena torre achatada e de forma castelizada e o elemento situado nos cantos da cimalha na parte mais alta da torre em forma de réplicasde casinhas de sentinela, têm apenas finalidade estética. Estes elementos estão presentes na torre de Belém de Lisboa, um belo exemplar manuelino. Aí tinham a função de postos de via.



Em alusão ao antigo Palácio do Governador, outra construção de grande representatividade no Centro Histórico da Praia, importa salientar que as autoridades coloniais da metrópole tinham caucionado os argumentos locais, acerca da necessidade de uma nova residencial oficial para o Governador da Província de Cabo Verde. Tais fundamentos foram realçados no Relatório da Direcção das Obras Publicas da Província de Cabo Verde, datado de 1 de Outubro de 1878, dirigida à Sua Majestade. No mesmo sublinhava-se que o edifício primitivo era impróprio à cathegoria do primeiro funcionário da província e ao crédito e prestigio d'esta capital, aos alhos estrangeiros que visitam com frequência estas paragens. Foi, na sequência, disponibilizada para o Governo Provincial, uma casa alugada para servir de residência oficial. A mesma corresponde ao edifício adiante apresentado.
Apesar de não ser tão nobre, o edifico acima, como aquele que se previu através de uma bela planta para a construção de um edifício de raiz para o fim referenciado, concretizaram-se os desejos locais de uma residência oficial condigna. Segundo António de Paula Brito (1889) se optou pela compra e adaptação de uma das melhores casas da cidade que tinha sido alugada. Estes dados foram reportados no B.O. nº 11/1886. 
Como resultado da elevação de Praia a Cidade em 1858, houve toda uma azáfama construtiva e um visível esforço de urbanização, na Cidade da Praia, que caracterizou toda a segunda metade do século XIX. Nesse empenho incluem-se a melhoria das condições de acostamento e fomento das instalações inerentes à actividade portuária no eixo urbano, provavelmente mais antigo do Centro Histórico da Praia. Referimo-nos à zona costeira, por excelência, o pólo impulsionador dos restantes núcleos urbanos do Platô. Neste eixo urbano foram erigidas construções estratégicas para o progresso económico futuro da urbe. Algumas dessas edificações, com valor histórico-cultural, são apresentadas na literatura consultada, designadamente, em Senna Barcellos, como obras de primeira necessidade, em andamento ou interrompidas por volta de 1858, quando o burgo era elevado a Cidade (B.O. nº 20/1858). Assim, concentraram-se na área litorânea as tradicionais obras arquitectónicas ligadas à actividade portuária, tais como: o edifício da alfândega, o lazareto para os quarentenários vítimas de epidemias que grassavam nos portos de origem dos navios e o farol de iluminação marítima.
O livro a ser dado à estampa (ver página 30) refere outros bens com valor patrimonial existentes no eixo Centro/Norte da parte histórica da Cidade, no período oitocentista e em épocas posteriores, bem como em outros espaços territoriais de Cabo Verde, mas não entra por caminhos da análise da dimensão estética das mesmas, devido à extensão desmedida que teria a obra, remetendo-as para um próximo livro. Mais que um conhecimento sobre essa urbe, é assumido como verdadeiro subsídio para a História da Arquitectura nestas ilhas e uma proposta metodológica para o estudo dos valores arquitectónicos de qualquer conjunto urbano de Cabo Verde, partindo-se do exemplo da Cidade Oitocentista da Praia. Dedica também uma atenção a outros locais de memória representados pelo património edificado em diversos pontos do país.

*Lourenço Gomes nasceu na ilha de S. Nicolau. É doutorado em História e quadro da Uni-CV. 
5-6-2011, 07:22:55
fonte: Expressodasilhas. 

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