domingo, 26 de junho de 2011

Mais uma morte patrimonial; vergonha pós-coloniais em Cabo Verde

introito
O povo escolhe pessoas (ego) e pessoas (alter) para governar. Acredito que o alter sobrepões-se a qualquer tentativa de valorização e de choramingas nostálgicas de grupos saudosos e orgulhosos do seu património. É o preço do colonialismo, a desvalorização daquilo que é construído historicamente  por uma colectividade. O complexo pós-colonial e a ganância neoliberal têm sufocado a memória colectiva em Cabo Verde, com barbaridades e mais barbaridades. Políticos cheios de complexos, que vivem eternamente com a mania, que um dia, serão actores da histórias.
O tempo é o melhor mestre que há; não há neves e nevões que escapam a tamanha vergonha pós-colonial! Enfim, orem, para a nossa felicidade, sem a memória. 


Eden Park delapidado: O triste fim de um passado glorioso

“Eden”, do realizador português Daniel Blaufuks, estreia na próxima quinta-feira, no Mindelo. O documentário faz uma viagem nostálgica ao período em que se produziam filmes em São Vicente, tendo como fio condutor o lendário Eden Park, e chega à ilha quando, já cadáver, aquela sala de cinema é esventrada em plena luz do dia. Indiferentes ao valor histórico e patrimonial daquela sala onde grandes talentos artísticos despontaram, populares levam o que conseguem arrancar ou carregar, diante da passividade das autoridades policiais.

Há quem não acredite, mas em tempos – anos 40 e início dos 50 do século XX – São Vicente foi cenário de quatro longas-metragens, realizadas e produzidas pelo Cineclube Amadores, interpretadas e com actores cabo-verdianos. Entre eles estava o “galã” António Silva, conhecido pelos mindelenses como Antone Puntchinha, protagonista do drama romântico “O Segredo de um coração culpado”. A projecção acontecia no saudoso Éden-Park e as sessões, contam fontes da época, concorriam com as dos filmes produzidos nos Estados Unidos da América, Europa, Brasil e Índia. Películas que ditavam moda no Mindelo, geravam fãs e despertaram a mentalidade dos mindelenses para o mundo que existia além-mar.
Mas nem só de cinema vivia o Éden-Park. A sala transformava-se vezes sem conta em palco de espectáculos musicais e teatrais. Foi ali que o conjunto Voz de Cabo Verde actuou pela primeira vez, após ser recebido em apoteose pelos mindelenses. Também para Celina Pereira e outros grandes nomes da música cabo-verdiana esse foi o palco para se revelarem ao país, nos anos 60. Na década de 80 e 90, o Eden Park acolheu todos os espectáculos do grupo Juventude em Marcha, que conseguia preencher a lotação da sala por dias a fio, e também de várias edições do concurso musical Todo Mundo Canta. E quando também cá vinham estrelas da música internacional – Carlos do Carmo, Madredeus, entre outros – era no Eden Park que actuavam.
Tudo isso é passado, contudo. Quando os filmes deixaram de conquistar público e a projecção para uns poucos cinéfilos já não dava para cobrir as despesas de importação, o Eden Park foi vendido a um empresário que nunca deu a cara nem jamais mostrou o que projectava para o empreendimento. Tampouco se preocupou em preservar a sua propriedade. O Eden é por isso agora uma pálida e triste imagem do que foi. E quem passa pela Praça Nova não deixa de se sentir chocado pelo triste espectáculo que proporciona aos olhos impotentes dos mindelenses. As janelas deixaram de existir, pilhadas de há muito. O lixo amontoa-se no seu pátio. A porta de metal está enferrujada. As paredes exteriores, já sem cor, apresentam sinais de deterioração.
Não bastasse isso, agora é ao Eden P(a)rk – onde o letreiro todo enferrujado também perdeu a letra “A” – que uma certa camada resolveu ir abastecer-se de borla. É o antigo cinema que lhes dá tudo para desenrascar a vida: armários, mesas, lâmpadas, numa delapidação. “Um domingo à tarde, caminhando pelas ruas de Mindelo, aproximei-me da Praça Nova, e meus olhos bateram de frente com um marceneiro que depenava o acervo do Eden-Park, retirando de lá uma ponte de rodagem de filmes. Os seguranças dos bancos e dos hotéis das redondezas conversavam tranquilamente na mesma calçada indiferentes ao que se estava a passar. Ninguém se mexeu, ninguém fez nada”, relata incrédula uma fonte do A Semana. Questionado sobre os motivos porque estava a praticar acto tão condenável, conta a mesma fonte, o homem respondeu que “precisava da tábua para trabalhar e conseguir o alimento para os seus”.
Nem mesmo a consciência de que o seu acto era crime incomodava o tal marceneiro, conclui a nossa fonte: “Na opinião dele, aquele material não mais seria necessário, já que o Eden Park havida sido vendido a alguém desconhecido. E se as autoridades não impediram a venda desse património de São Vicente, como poderiam agora intervir na retirada de tais materiais?!”
A resposta que a nossa fonte obteve das autoridades policiais pouco tempo depois viria a confirmar que, afinal, o marceneiro sabia do que falava. “A minha decepção foi maior quando interpelei a guarda municipal e mandaram-me ao comando da Polícia Nacional, para fazer a denúncia e identificar o transgressor. Mas avisaram de antemão que só seria feita alguma diligência caso o valor monetário dos bens saqueados excedesse os 300 mil escudos”, relata estupefacta a nossa fonte. Este não é um episódio isolado, confirmou A Semana. Outros equipamentos têm sido roubados por populares na barba-cara de todos e sob o olhar impávido e sereno das autoridades. A pergunta que fica no ar é: quanto custa a memória de uma nação? Qual é o preço da história cultural de Cabo Verde? Quando tomarão as autoridades uma atitude séria sobre o Eden Park?
Teresa Sofia Fortes
Fonte: A Semana

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