quarta-feira, 26 de outubro de 2011

César Monteiro: De onde veio e para onde vai a música cabo-verdiana?




"Música Migrante em Lisboa - Trajectos e Práticas de Músicos Cabo-verdianos" é o título da tese de doutoramento do sociólogo César Monteiro, agora transposta na íntegra para livro, pela Editora Mundos Sociais. A obra foi apresentada em Lisboa e o evento serviu de pretexto para uma longa conversa sobre este estudo e sobre o panorama da música cabo-verdiana em geral. Uma conversa, sempre sob o olhar da sociologia.

Expresso das Ilhas - Música e Migração, são os dois grandes fenómenos contemplados nesta obra. Como se relacionam?
César Monteiro - Eu costumo dizer que a migração e a música constituem um casal muito feliz e muito interessante. Os emigrantes, quando partem, não vão sozinhos: levam consigo a sua bagagem cultural, onde também está a música. De facto, a música constitui uma das marcas mais visíveis e poderosas da diáspora cabo-verdiana. É um dos três grandes marcadores da identidade cultural na diáspora, a par com a Língua e a Culinária.
Trata-se, pois, de um fenómeno congregacional e organizacional, com um poder forte e em contexto migratório, a música, assume um importante papel de retenção da tradição e de inovação.
A música migrante é enraizada na matriz musical em Cabo Verde, mas é depois recriada, reconstruída, reelaborada e reinventada em contexto migratório específico, a partir da sua desterritorialização.
E não podemos esquecer que a música assume também propriedades terapêuticas, tem um efeito emocional.
A que se assiste no caso concreto da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que foi a área mapeada?
A partir, sobretudo, dos anos 60 constitui-se em Portugal uma comunidade de migrantes cabo-verdianos que se foi avolumando - chegou a ser a maior comunidade imigrante nesse país. Essa comunidade foi-se tornando cada vez heterogénea, isto é, foi-se diferenciado do ponto de vista da sua estrutura e composição sociais. Isso levou a que, hoje, os cabo-verdianos em Portugal sejam mais uma população que uma comunidade. Do ponto de vista sociológico uma comunidade pressupõe uma partilha não só em termos de valores, mas também em termos da estratificação social. Quais são os pontos de contacto, de convergência ou interesse entre um médico e por exemplo um trabalhador da construção civil cabo-verdianos? Mas há uma convergência, há uma partilha de identidade quando entra a cultura no meio. Neste contexto, a música constitui, por um lado, uma ferramenta de união e forma de afirmação da própria identidade cultural. Através da música os nossos emigrantes conseguem funcionar melhor como grupo e são mais comunidade e muito menos população emigrante.
Por outro, não menos importante, a música é, como referido, uma ferramenta de mudança.
Mantendo a matriz tradicional, a música migrante verifica-se mormente ao nível das letras, do conteúdo, mas também ao nível da sonoridade, dos arranjos.
Veja-se o caso das batucadeiras da Cova da Moura, que está documentado no livro: essas mulheres têm a capacidade de compor letras que retratam a situação que por lá vivem, embora respeitando a melodia e o ritmo do batuque de Santiago.
Fernando Luís Machado escreve no prefácio da sua obra que esta é "um retrato analítico completo do campo musical cabo-verdiano, feito do lado da produção". Em que consiste esse campo?
Aquilo que eu chamo de campo musical - seguindo a concepção de Pierre Bordieu, no seu sentido mais lato - é o espaço de congregação e de concentração dos protagonistas, dos actores sociais que intervém em contexto migratório. Aí vamos encontrar os produtores musicais, os mediadores e os consumidores. Este estudo concentra-se na primeira dimensão, concentra-se na perspectiva da produção.
Devo, no entanto, dizer que este é um estudo que continua em aberto. Já comecei aquilo a que se poderia chamar a segunda parte, que aprofundará aspectos ligados ao funcionamento do mercado de trabalho dos músicos imigrantes na AML.
Falando sobre este "primeiro" livro do estudo, através dos inquéritos e das 102 entrevistas que realizou traça o perfil dos actores do campo. Como se caracteriza o campo musical da AML?
O campo musical cabo-verdiano em Portugal está estratificado em função do sexo, idade, rendimento, etc.
É um campo musical diversificado, heterogéneo, em que se verificam processos de competição, principalmente entre os chamados "instalados" e os que "não instalados".Mas dentro dessas dinâmicas internas há também processos interessantes de cooperação.
Outra coisa que constatei é que apesar da hierarquização (instalados, jovens, etc) prevalece no campo musical um certo amadorismo. Ainda não há uma verdadeira cultura profissional nos músicos. Isso traduz-se na falta de capacidade de cumprimento de normas internas (todos os campos têm normas, note-se). Não cumprem horários, não se preocupam com a postura no palco, não vão aos ensaios. Há excepções, mas este é um problema que afecta e são os próprios músicos que falam nisso.
Graças ao questionário usado pude chegar a algumas constatações que ainda não se tinham feito. Por exemplo, este universo é juvenilizado, masculinizado e com escolaridade relativamente elevada do ponto de vista sociodemográfico.
É um universo musical relativamente jovem que se vai renovando continuamente porque a renovação dessa categoria social também tem a ver com a renovação da própria comunidade/população emigrante.
Neste momento há uma franja muito significativa de músicos com formação musical, algo que não se via antes, é um fenómeno começa a partir de 1996.
Ainda há muitos músicos que tocam de ouvido, mas esses estão condenados à história. A tendência é para que cada vez mais, os músicos da nova geração adquiram formação na área musical, nomeadamente em conservatório.

"As mulheres estão na vanguarda da interpretação, mas não têm poder. É um paradoxo."

Disse que é um dos aspectos desse universo é a forte presença masculina. Mas alguns dos grandes intérpretes são mulheres.
A retenção musical em Portugal é assegurada pelas mulheres, mas como tenho dito é uma população masculinizada, mais masculina que feminina - e em Cabo Verde passa-se o mesmo.
As mulheres estão na vanguarda do ponto de vista da interpretação, mas não têm poder. São eles que tem os recursos para projectar a música. Há aqui, portanto, um paradoxo.
Repare que este campo musical é híbrido, assimétrico. Essa assimetria tem a ver com o facto de ser dominado por um punhado de actores, que decidem quem trabalha ou não. Os que dão as cartas são meia dúzia e dominam o mercado de trabalho. E aí não se encontram mulheres.
No seu livro aborda também a questão dos descendentes de cabo-verdianos, tendo como caso de estudo a comunidade do Alto da Cova da Moura. Como é que estes filhos de emigrantes "vivem" a música?
Os descendentes de emigrantes têm um comportamento ambíguo e ambivalente. Eles não se sentem portugueses, mas também não se sentem bem em Cabo Verde. Dizem que não são aceites quando vêm cá e muitos deles nunca puseram cá os pés. A contribuição da diáspora para a evolução da música cabo-verdiana é diferenciada, em função dos próprios contextos específicos das diversas comunidades de emigrantes em que ela se verifica, sendo paradigmáticos os casos da Holanda (linha mais inovadora) e Portugal (linha mais tradicional com reelaborações, é certo).
E, devo referir os festivais musicais, por exemplo, que são grandes responsáveis pela grandeza da música de Cabo Verde, que deu um salto enorme.

"Não há uma música cabo-verdiana autêntica, genuína, na verdadeira acepção etnomusicológica"

Que influência há, então, entre a música migrante e música que se produz em território nacional?
As influências são recíprocas. Não se pode fazer uma análise rígida e separada das duas componentes. Estas complementam-se e há um intercâmbio permanente. É certo que a diáspora tem contribuído, e de que maneira, para o avanço da musica cabo-verdiana. Temos hoje, graças a ela, uma música mais mestiça, mais crioula, mais rica, mais heterogénea, mais moderna. Mas também é verdade que a música que se faz cá tem dado uma contribuição igualmente enorme e de grande valor para a música cabo-verdiana.
Assiste-se, por outro lado, à emergência de novos géneros musicais que não são tipicamente cabo-verdianos, ou seja, que não são produzidos em Cabo Verde, mas que acabam por integrar o património musical cabo-verdiano.
Esse binómio música/fluxos migratórios é, pois, importantíssimo.
Há renovação musical por causa dos fluxos, se não houvesse a música teria ficado estagnada. Os principais indicadores da evolução da música cabo-verdiana expressam-se sobretudo ao nível dos arranjos, das melodias, do acompanhamento, dos ritmos, bem como da introdução de novos instrumentos, de novos acordes, que se traduzem na emergência de novas sonoridades e numa abordagem diferente.
Na verdade, não há uma música cabo-verdiana autêntica, genuína, na verdadeira acepção etnomusicológica. Nunca a houve. Aliás, pela nossa posição geoestratégica, pelo nosso passado, pela nossa história que resulta de encontro de culturas, e pela nossa cultura propriamente, sempre tivemos uma música sincrética, totalmente aberta ao mundo e que recebe contribuições de todas as latitudes. Não há uma música estática, tanto mais que a sociedade cabo-verdiana também não o é. Pelo contrário, é uma sociedade dinâmica.

"Novos géneros musicais que não são tipicamente cabo-verdianos acabam por integrar o nosso património musical".

Mas há uma preservação da tradição musical cabo-verdiana em Portugal. Considera que há mais purismo na música feita lá?
Não sei se será bem isso. O que há é um fenómeno sociológico muito interessante. O facto de haver esse afastamento físico, faz com que as pessoas se refugiem na música tradicional cabo-verdiana e a valorizem mais do que aqueles que se encontram aqui. Repare a musica também está ligada a saudade. E o batuque, por exemplo, tem uma dimensão de saudade muito forte. São as pessoas que vivem lá, os que são obrigadas a transportar-se para as suas origem para poderem de alguma maneira reencontrar-se consigo próprias.
Sendo assim, a música tradicional cabo-verdiana não é estática e, por isso, tem evoluído e recebido influências várias sem, contudo, fugir à matriz musical.
A meu ver, é preciso desconstruir tabus, preconceitos e prejuízos em relação à música, defendendo uma nova abordagem mais aberta, sincrética e muito menos purista, ao serviço da identidade nacional e do desenvolvimento do país.
A música cabo-verdiana passa, nos últimos anos, por um interessante processo de ebulição, efervescência e renovação, oscilando entre a qualidade e mediocridade, de acordo, aliás, com o sagrado princípio e sempre actual da selecção natural de Darwin.

Tem insistido no importante papel da investigação sociológica a nível musical em Cabo Verde. Por quê essa importância?
A música está a desenvolver-se em processos muito rápidos. É fenómeno complexo.Cabo Verde é um país de mestiçagem cultural, em permanente evolução, que também se traduz de forma e clara e inequívoca na música. De igual modo, Cabo Verde é um país de identidades culturais híbridas e sincréticas. Mais, a natureza sincrética e mestiça da sociedade cabo-verdiana faz com que a sua cultura identitária e musical seja aberta, plástica, desterritorializada e relativamente transnacional.
A classificação musical, ou seja, a avaliação daquilo que é ou não é música cabo-verdiana não pode, nem deve continuar a ser feita a partir de padrões ou parâmetros musicológicos rígidos e de conveniência, excluindo, inclusive, interessantes géneros ou formas musicais produzidos em contexto migratório e sem ter em conta as realidades sociológica, antropológica e etnomusicológica em que se manifestam.
Temos de ter gente a estudar isso. Um músico, por mais brilhante que seja ele não tem condições para estudar o processo musical.
Há que reforçar a componente da investigação, sobretudo da componente sociológica antropológica, preparar musicólogos, sociólogos na área da música e temos as universidades têm que se começar a virar para o ensino da música.
Na minha opinião, o maior desafio que se coloca à música cabo-verdiana é o aprimoramento técnico, o conhecimento e adequado e correcto que passe pela formação, e, por isso, não se pode deixar a música a mercê e por conta da espontaneidade, da inspiração e da improvisação.
É preciso educar, aprofundar, pesquisar correctamente a música cabo-verdiana, produzir mais e melhor. Em suma, é preciso mais estudo, mais formação, mais escola, mais conhecimento.
Há também necessidade de conhecimento estrutural e cada vez mais aprofundado do campo musical, nos seus diferentes matizes, dos seus actores e protagonistas, sejam eles produtores ou criadores (compositores e intérpretes), mediadores (agentes, intermediários) e consumidores, tanto na diáspora como em Cabo Verde, de forma articulada.

25-9-2011, 00:34:15
Sara Almeida, Redacção da Praia
fonte: Expressodasilhas

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