terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Visitas ao museu; tentativa de um ensaio



No compasso do tempo, o trabalho de reconciliação com a memória do passado é regatar momentos ocultos que se encontram varridos do ambiente da cidade neurótica. Mais do que deambular pelas faces minguadas e de bocas ruinadas dos mais velhos, é ouvir as suas vozes, os seus testemunhos do tempo que já fora. Nos dentes decantes que testemunham as ruinas da cidade velha, as cariátides, colunas, capiteis, o pelourinho, os artefactos, etc., sufragam clamores e desejos de arranjos. Arranjo! Não quer dizer um trabalho de luto para enterrar os mortos que a esquina do tempo se encarregou de apagar; mas de reconstrução da memória em suporte activo que eduque os mais jovens.
O museu é mais do que um edifício que faz paredes meias com o vizinho que chora e implora para uma visita e um olá. Os vizinhos da cidade, os tais citadinos, fraquejam na densidade dos desafios, desconhecem a sua história e tremem perante os desafios da vivência civil. Os jogos das lembranças e esquecimentos são descurados nos seus paleios diários; só se gravitam em conversas efémeras, de consumismo empolgante, de farras falocêntricas. Por não haver investimento no simbólico, desenvolvem-se em retrocesso nas suas memórias. O processo mnemónico é processo de musculatura do tecido social; recorrer a memória colectiva é jogar em várias frentes: a história, o presente e a projecção. O museu enquanto lugar de memória, é um activo da memória. 

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